25 junho 2010

As Faces do Amor

“Meu coração bate mais forte que o seu
Quando eu te vejo, mas quando eu vejo você
Será que é amor? Não sei.
Será que é paixão? Talvez.
Só sei que é bom demais
Aqui tá bom, só falta você
Aqui tá bom, só falta você
Aqui tá bom, só falta você
Você... você, meu bem querer.”

(Música: Forró & Paixão. Trio Virgulino. Composição: Carlinhos Axé e Gonzaguinha do Baião)

O que é o Amor? Com a proximidade do Dia dos Namorados, corações brotam em todos os lugares, parece que o mundo inteiro descobre-se apaixonado neste período. Até quem não tem uma pessoa querida dá um jeito para não passar a data sozinho. Mas será que o amor é mesmo como a mídia anuncia? Será que se resume somente a cartões, presentes, jantares, olhares e noites no motel? Não. Um amor assim seria ordinário demais. Soa mais como uma tendência de mercado do que como algo sublime. Antes de tudo, tenho comigo que o amor segue uma progressão linear. Nasce e vai se desenvolvendo devagar, vai se aprendendo aos poucos. Manhã após manhã. Noite após noite. Requer trabalho. Um passo de cada vez. Não é algo que acontece de repente, explosivo, exponencial. Essa idéia de amor como um sentimento avassalador que nasce do nada me parece mais uma invenção louca da nossa geração “fast food” do que amor de verdade. Pode até ser que a faísca inicial venha no primeiro olhar, mas manter a chama acesa é uma tarefa diária. Amar é algo que leva tempo. Não é como uma gripe que se denuncia ao acordar espirrando ou com o corpo doendo. O Amor é outra coisa, algo mais sutil. Apesar de ser um dos grandes fãs de Vinicius de Morais e saber de cor o “Soneto de Fidelidade”, confesso que me decepcionei ao assistir o filme com a biografia do poeta. Antes eu o imaginava como uma espécie de “guru do amor”, uma dessas almas privilegiadas que sentem e vivenciam o sentimento em toda sua intensidade e beleza, mas acabei convencido que apesar de ter colecionado vários “amores”, talvez o poeta nunca tenha experimentado o Amor. Ele se casou 9 vezes. Apaixonava-se com freqüência, mas deixava a faísca ir embora com a mesma rapidez que surgia. À primeira dificuldade mais trabalhosa, começava a procurar uma nova centelha no olhar de outra mulher. Embora tenha deixado muita coisa bonita escrita a respeito do Amor, pode ser que tudo tenha sido fruto daquela característica própria dos poetas, a de ser um fingidor...

Uns dizem que amar é o pensamento constante. É querer a pessoa querida sempre ao lado. Mas o amor delicia-se também na saudade. Cresce na ausência. Persiste quando ninguém está vigiando ou esperando nada dele. Transcende. Querer ardente e simplesmente a presença de quem se ama não é amor. Pode ser até obsessão. Obsessão é um pensamento fixo, recorrente, intrusivo, absurdo. Não conhece limites. A obsessão transforma o objeto de afeição a um mero item colecionável. O colecionador deleita-se em estar com seus artigos da coleção, alegra-se com eles, se diverte, dá-lhes um valor muitas vezes inexplicável, mas não lhes dá liberdade. Cada coleção é uma prisão específica. O filatelista tem seus plásticos e pastas catálogos. O entomologista tem suas caixas de madeira com os insetos espetados. Um colecionador de pássaros terá suas gaiolas. E assim vai... Tente retirar um só item de uma coleção qualquer e vai ver só a reação de seu dono! A obsessão é um sentimento egoísta de posse. Quer só para si. Imutável. Escravo. O Amor deixa a porta aberta. Sabe que quem tem sua afeição é uma pessoa e não um objeto. E pessoas têm vontades, poderes, sentimentos, escolhas próprias. Rubem Alves fala, muito certo, que "amar é ter um pássaro pousado no dedo, e quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que a qualquer momento ele pode voar". O Amor sabe que nem sempre as preferências vão ser coincidentes, que pessoas crescem, mudam de idéia e de gostos. O Amor respeita as escolhas e mudanças. Nos evangelhos lemos que uma vez Jesus curou um cego, mas ao perguntar como ele estava vendo, recebeu a resposta: "Vejo homens como árvores." Para um cego que passou toda a vida na escuridão, alguma visão já era grande coisa. Jesus não se contentou. Restaurou a visão daquele homem totalmente. É Seu desejo que sejamos plenos. Quem enxerga as pessoas como árvores, vê seu próximo como uma coisa, não como a Imagem e Semelhança de Deus. Qualquer tipo de falsa afeição confundida com amor é assim também: é uma visão embaçada, envolvida em sombras. Rouba a liberdade e beleza das pessoas. Dá a ilusão de que o outro está lá: plantado como árvore. Estático. Não muda nunca. E pode (inclusive) até ser podado, se sua forma não nos agrada ou mesmo derrubado por nossa vontade, se estiver fora do plano que traçamos inicialmente.

Há outros ainda, e estes são numerosos, que acreditam que amor é sinônimo de sofrimento e dor. Os poetas românticos alemães pensavam assim. Seu ponto de vista influenciou toda uma geração na Europa e no mundo. Até aqui no Brasil. Álvares de Azevedo, por exemplo, acreditou piamente neles e deixou vários escritos comprovando isso. Morreu com vinte e poucos anos, tísico, alma amarga e sofrida e, se não me engano, sem nunca ter dado um beijo na boca. O romantismo acreditava no amor de forma idealizada e inalcançável, por isso tanto sofrimento. Mas isso não é Amor, é paixão. A Paixão arde no peito como uma ferida latejante. Tem acessos de febre, cólera e desejo como qualquer outra enfermidade. Isso mesmo, a paixão é uma espécie de doença. Um estado não saudável da alma. Tudo é motivo de sofrimento: a ausência dói, a presença machuca, a possibilidade da perda cria mil ilusões contraditórias e acaba virando ciúmes. A paixão é desequilíbrio. Segundo a mitologia grega, a Paixão é fruto de uma traição: foi da união ilegítima do deus da guerra Ares com sua cunhada (a deusa do Amor Afrodite) que foi gerado o Cupido, o pequeno deus alado com arco e flechas que sempre aparece em cartões amorosos. Era assim que os gregos explicavam as contradições e conflitos da paixão. Mas o Amor é outra coisa.

O que é o Amor afinal? A. W. Tozer faz distinção entre dois tipos de amor: o amor-sentimento, que o homem não controla e que brota ou esvai da alma como lhe apraz e o amor-vontade, que é uma escolha deliberada do ser humano. Quando a Bíblia fala que devemos amar a Deus e ao próximo, não está falando sobre o amor-sentimento, mas sobre o amor-vontade. Não há como um ser moral amar obrigado. Ninguém pode forçar um sentimento, mas pode querer agir de forma favorável ou prejudicial a alguém. O amor bíblico é sempre caracterizado como um amor de ação, de movimento, é ir além do que se espera, dar a túnica a quem pedir a capa, andar duas milhas a quem pedir uma. Orar abençoando quem deveríamos logicamente pedir a cabeça... Vale lembrar o versículo mais conhecido dos evangelistas "Porque Deus AMOU o mundo de tal maneira que DEU o seu Filho" (João 3:16). É o Amor que se define pela capacidade de dar, pela entrega. Não há como amar pela metade, ou com restrições. Ou se ama por inteiro ou não se ama. É uma escolha de posição: estar favorável ou contra. Sem neutralidades.

Talvez a passagem bíblica mais famosa sobre o amor seja o capítulo 13 da primeira carta de Paulo aos coríntios: “Ainda que eu falasse a língua dos anjos e dos homens, se não tivesse amor, seria como o sino que soa ou como o prato de retine” (1 Coríntios 13:1 - NVI). Os versos se tornaram populares, o contexto em que foram escritos não. A igreja de Corinto estava com problemas de divisões, uns falavam que eram de Apolo, outros de Pedro, outros de Cristo. Se fosse hoje, talvez falassem que eram da igreja do bispo sicrano que comprou o cinema ou do apóstolo fulano que fala no canal tal. Mudam os nomes, mas a questão é sempre a mesma: gente dentro do Reino de Deus querendo estabelecer seu próprio reinado. Como se não bastassem as divisões, havia também imoralidade na igreja de Corinto. Uma imoralidade tão descarada que Paulo afirma que nem entre os pagãos se via aquilo (1 Co 5:1). Fico pensando no que era normal para a época: o paganismo aceitava muita coisa. Havia vestais, prostitutas rituais de cultos greco-romanos que iniciavam seu ofício ainda crianças e serviam sexualmente nos templos para uma multidão de peregrinos. Havia as orgias e liberalidade dos bacanais, festivais públicos oferecidos ao deus do vinho. A política era discutida muitas vezes na cama ou banhos públicos, pois muitos senadores e até imperadores (a exemplo de César no Egito) usavam o sexo como meio diplomático. O filme "Proposta Indecente", em que Michael Douglas paga uma bolada para transar com a linda Demi Moore foi polêmico quando saiu no cinema, mas não causaria nenhuma comoção se tivesse sido exibido na Roma Antiga. Era comum oferecer a esposa, a filha, ou até o filho para ser usado sexualmente se a família pudesse ser favorecida de alguma forma através daquele ato. E ainda assim, em meio a tudo isso, Paulo fala que dentro da igreja as coisas estavam piores... Talvez ele dissesse a mesma coisa se conhecesse nossas igrejas hoje. Em suas duas cartas aos coríntios, ele trata das divisões, da imoralidade, do casamento e também de assuntos litúrgicos como adoração e celebração da ceia. Mas me chamou a atenção o apóstolo ter reservado todo um capítulo para falar de amor para aquela igreja depravada. Hoje ainda é relevante essa preocupação, pois nossos conceitos de amor estão desgastados e literais. Como na igreja de Corinto, ainda há entre nós os que usam o Reino como pretexto para autopromoção, os que gostam de divisões, os que estão afundados em sua própria podridão, e os que sacralizaram tanto o Amor que o tornaram mais um conceito religioso vazio e alienado... É necessário lembrar o que é o verdadeiro amor.

O grego koiné* possui três palavras para descrever o que o português traduz como amor: Ágape, Eros e Phileo. O grego clássico (erudito) ainda tem a variante Storge. O amor Ágape é o amor-vontade de Tozer. Embora o senso comum cristão o impute a Deus, não é exclusividade divina, mas pode e deve ser encontrado entre humanos também. O amor descrito em 1 Coríntios 13 é essencialmente “ágape”. É um amor caracterizado pelo querer e pelo agir mais do que pelo sentir. É o amor que se sacrifica pelo amado sem pedir nada em troca. “O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (vs 4-7, ARA). As versões católicas geralmente o traduzem por caridade. Particularmente rejeito a tradução “caridade” pela confusão que o filantropismo e a religião fazem com expressões como “obra de caridade” (geralmente mais como sinônimo de “esmola” do que como “ato de amor”) e também pela impressão que caridade é mais próxima etimologicamente do grego “Xaris” (ou Charis, que significa “presente” ou “graça”), do que de qualquer verbete original de Amor. A segunda palavra grega para amor é Eros e traduz a paixão carnal, o desejo. É o tipo de amor que se relaciona mais ao corpo do que com qualquer outro componente do ser humano. Não é à toa que a palavra “erotismo” e “erótico” encontram sua origem etimológica em Eros. Embora alguns insistam que este é o amor pecaminoso, isso é um engano. O sexo é uma bênção de Deus e já estava implícito na ordem divina de Genesis 1:28 “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra (…)” (ARA), antes que entrasse o pecado no mundo. Como indício de que é uma bênção do Criador vejo também o fato de que o homem talvez seja o único ser criado que pratica o sexo não somente com a finalidade de procriar, mas por prazer. Animais copulam, se acasalam, o homem faz amor. Deus poderia ter nos criado também com períodos de cio e acasalamento, mas quis que usássemos nosso livre arbítrio para decidir onde, quando e com quem faremos sexo ou não. Embora seja inegável a existência dos períodos férteis e nossa suscetibilidade à influência hormonal, não somos escravos de nossos instintos animais. O ultimo tipo de Amor encontrado no grego Koiné é o Phileo, o amor de companheirismo, de amizade e cumplicidade. O amor Phileo indica o desejo e empenho em se estar junto, é o amor da caminhada diária, da companhia. Ser companheiro (de “con pane” + sufixo “eiro”) é partilhar do mesmo pão durante uma jornada. Phileo serve de raiz para algumas palavras portuguesas sempre carregando um sentido de “gostar muito de” ou “ser amigo de” como, por exemplo, filantropo (“amigo do homem ou da humanidade”) e filósofo (“amigo da sabedoria”) dentre outras. Finalmente, o amor Storge, do grego clássico, é o amor romântico, emocional por excelência, platônico ou não. É o querer bem como mais do que uma amizade apenas e dispensa maiores comentários já que é encontrado vastamente na literatura e cinema.

Qual desses é o amor “certo” então? Seria um reducionismo barato dizer que a alma humana em toda a sua bela complexidade pode nutrir somente um tipo de amor. Talvez a faísca inicial de tudo seja o Storge... Aquela sensação de possibilidade que enche o peito de esperança e expectativa. O Storge, evoluindo, vai se lapidando como uma pedra preciosa e adquirindo faces dos outros tipos de amor. Paulo fala que o marido deve amar a esposa como Cristo amou a igreja (Efésios 5:25), isso é amor Ágape. É algo sério! É estar disposto a dar a própria vida pela mulher. Acho até que isso serve como base para afirmar que um relacionamento com maior chance de sucesso é aquele em que o homem ama muito mais do que a mulher. O coração masculino talvez careça de mais loucura no amor para derreter do que o feminino. O apóstolo também deixa claro que o corpo do homem pertencerá à sua mulher e vice versa (1 Coríntios 7:2-4), esse amor do corpo é Eros e pede que nem o marido nem a esposa abandone um ao outro (1 Coríntios 7:10), isso é Phileo. Assim, um amor sadio, belo e delicioso é a combinação de todos esses tipos em um só de forma equilibrada. Qualquer exagero em um dos tipos pode acabar em sofrimento e inconvenientes...

As profecias desaparecerão. As línguas acabarão e a ciência passará, mas o amor jamais acaba... (1 Coríntios 13:8 – tradução própria direto do grego).



NOTAS:
*O grego koiné ou grego comum foi imposto por Alexandre, o Grande, como língua oficial do império grego de uso obrigatório aos povos conquistados. Era uma versão simplificada, visando priorizar a comunicação oral, desprovida de muitas regras gramaticais que regiam o grego clássico, no qual escreveram os grandes filósofos. Os textos bíblicos do período intertestamentário e do Novo Testamento, em sua maioria, são escritos neste dialeto.

ABREVIATURAS:
Versões da Bíblia:
ARA – Almeida Revista e Atualizada
NVI - Nova Versão Internacional

TAGS:
AMOR , PAIXÃO, AGAPE, EROS, PHILEO, DIA DOS NAMORADOS

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