Desde pequeno fui "batistão" mesmo, desses que chamam os presbiterianos de "primos" e imaginam secretamente que estarão sozinhos no céu. Cresci acostumado às línguas estranhas, às campanhas de prosperidade, quebra de maldições e afins. Sem uma noção apurada de o que era um presbitério e achando que diácono era uma espécie de garçon consagrado de santa ceia.
Como bom batista, sempre acreditei que o certo era crer para depois ser batizado. O que excluía batizar crianças e tornava comum a "profissão de fé" no término do discipulado. Ah, e o batismo para ser válido deveria ser por imersão (por causa do simbolismo de morrer para o mundo e renascer em Cristo) e seguindo a fórmula trinitária: "Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo."
Fui ensinado que "dar testemunho" significava, na prática, que eu não podia fumar, beber, ouvir música mundana e frequentar certas companias e lugares. Sexo era um assunto permeado de tabús e supertições, algumas sem nenhuma base bíblica. O meu erro foi que seguindo este caminho, sem perceber comecei a trabalhar para me tornar mais "salvável". Tudo passou a ser meticulosamente executado e pensado PARA QUE eu não perdesse a salvação e não PORQUE eu já era salvo. Como se não bastasse, a prática do que eu chamava de vida cristã me levou a ficar cada vez mais arrogante e intransigente em relação aos outros cristãos de outras denominações. Esquecía-me que Jesus havia deixado bem definido o que realmente significa dar testemunho: "Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros" (João 13:35, NVI). Mais do que ficar longe de pistas de dança ou abster-se de bebidas alcoólicas, testemunho se dá vivendo em amor. A verdadeira santificação não envolve complexos de superioridade nem olhares de alto para baixo. Mas em viver em intimidade com Deus e em comunhão com os irmãos.
Falo dos batistas porque conheço de perto, mas este não é um erro de exclusividade batista. Muitas outras igrejas agem como se sua denominação tivesse primazia sobre as demais, como se fossem o único "corpo de Cristo" autorizado e legítimo. Há presbiterianos que sentem pena dos que não são perdestinados e se tornaram soberbos com sua história e erudiçao bíblica. Há os pentecostais que olham com desprezo para as mulheres com batons e corpo depilado enquanto exibem orgulhosos seus ternos antiquados, cabelos sem corte e pernas cabeludas como medalhas de espiritualidade maior. Tudo isso é muito triste! A verdadeira igreja de Cristo, a Noiva sem mácula que vai ser arrebatada, não é limitada por templos, líderes ou nomes de fachada. Não tem CNPJ, endereço impresso em folheto de evangelismo ou envelope de dízimo , nem sede fixa nesta terra. Não tem uniformes de corais ou títulos terrenos. A Igreja de cristo é eterna, é sobrenatural e contra ela as portas do inferno não podem prevalecer. Mais do que preocuparmos com usos e costumes, se a bebida é permitida ou não, se o batismo deve por aspersão ou imersão, se somos predestinados ou escolhemos ser salvos, devemos lembrar sempre que é Cristo que nos une. Somos parte de um Reino Eterno e devemos oferecer o melhor serviço que pudermos ao REI. Somos servos iguais.
Meu contato com os luteranos no sul do Brasil serviu para quebrar muitos de meus paradigmas. Conheci pessoas convertidas, frutíferas no Reino, verdadeiramente íntimas com Deus e que se assentam num bar e tomam chopp de maneira sadia e equilibrada. Não é o que fazemos ou deixamos de fazer, é o que somos que realmente importa.
"Viver pela fé", implica em confiar que a Graça que nos salva é suficiente. Não deve ser barganhada ou diminuída por liturgias, rituais ou disputas sobre quem é o mais santo.
Acredito que, se aqui na terra a comunhão e convivência é complicada, o que farão na eternidade?
Se o céu for mesmo do modo que já ouvi muitos pregarem - o que eu realmente duvido. Acho que preferirei então morar num bairro luterano. Os de algumas outras denominações devem parecer com aqueles condomínios cheios de regras e síndicos carrancudos. Num bairro luterano vou abrir um barril de uma boa cerveja celestial, papear com os outros remidos enquanto as anjos fazem um "couvert artístico" e celebrar eternamente a Graça de Cristo que me alcançou. Lá possivelmente devo encontrar Lutero cantando com uma bela caneca de chopp na mão. Vez ou outro Calvino aparecerá para fazer degustação de vinhos e os metodistas que inventaram o Bourbon vão contar histórias de suas viagens missionárias, martírios e sofrimentos que já não existirão.
E do condomínio dos legalistas, talvez nos olhem com certa desconfiança. Imaginando o que aqueles felizes loucos fazem no céu e como conseguiram chegar lá. Será que o sentimento que terão será de alegria ou se sentirão frustados ao descobrirem que fomos comprados pelo mesmo sangue?
Os que supervalorizam as doutrinas denominacionais e esquecem das verdades eternas agem como se o céu tivesse uma periferia... esta é uma idéia estranha, não é? Mas mais estranho ainda é que tão pouco ainda seja suficiente para nos separar...
_____________________________________________________________
Curitiba, 10/01/2009 - 03:22 AM
11 janeiro 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Um comentário:
nao li o texto, CLARO...
mas to passando aqui pra falar oi e falar que vai dar tudo certo.
bjo
Postar um comentário