
Outro dia saí para caminhar debaixo de chuva. Eu estava de cabeça cheia e precisava espairecer as idéias. Há algo mágico em caminhar sob a chuva que só sabe quem já experimentou. Não sei se é por causa do vento sussurrando nos ouvidos, ou se é a água lavando o corpo todo. É como caminhar num outro mundo, como se outra realidade se tornasse accessível entre as gotas caindo, uma dimensão de sinestesia. Sinestesia é uma relação entre uma percepção e outra que pertence a um sentido diferente. É dizer: “cheiro de azul”, “sabor do som”... etc. A dimensão da chuva é sinestésica, permite aos sentidos se misturarem todos. É um som que cai do céu e entra não só pelos ouvidos, mas também pelos olhos, escorre na pele, ecoa na alma. O som da chuva abafa todos os outros sons, até aquela barulheira insistente que se instala na mente da gente quando se está preocupado. Andar na chuva é como abandonar-se das ansiedades em felicidade líquida. É experimentar algo único e poderoso. Libertador. Pura catarse! É como uma viagem de LSD, mas sem precisar intoxicar o corpo ou a mente... pelo contrário, o corpo renova-se, a mente se torna mais límpida. Há quem evite as chuvaradas sob o pretexto de cuidado para não se gripar. Mal sabem que a chuva só adoece aqueles que temem sua mágica. Aos que se entregam alegremente, ela fortalece. Potencializa a imunidade contra os males do mundo, quer físicos ou mentais, biológicos ou da psique. A chuva conhece a lógica da máxima latina: “Audentes Fortuna iuvat” (tradução: “A sorte ajuda os mais atrevidos”). Os que ousam penetrar em seus domínios recebem os benefícios de sua magia. Os que se escondem sob as marquises, sob o teto de apartamentos ou telhados das casas, chegam até a reconhecer que estão diante de algo majestoso, mas permanecem à margem da experiência plena. É como ir a um grande show e ficar no canto mais afastado da platéia, em vez de subir no palco e provar a vibração das caixas e a luz dos holofotes. Triste limitação auto-imposta. A sabedoria popular adverte: “Quem está na chuva , é para se molhar”.
Andei na chuva por mais de uma hora. Absorvendo umas coisas, livrando-me de outras. Enchendo os pensamentos de poesia, idéias de histórias, de orações. Quando saí na chuva eu era um, mas foi outro o que voltou para casa: bem mais leve, mais tranqüilo, encharcado...
Ás vezes é preciso ver e provar as coisas com o olhar de um salmista para descortinar tesouros escondidos bem à vista e encontrar serenidade.
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O texto foi escrito inicialmente no "Caderno Azul", mas quis postá-lo aqui. Claro que ele passou por adaptações e perdeu algumas partes mais "confissionais". Certas informações não são para serem de domínio público.

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