13 novembro 2009

Sobre caminhos, pensamentos e saudades...

Ontem caminhei um pouco por Curitiba. Não foi uma caminhada esportiva, foi mais uma atividade terapêutica, um passeio para arejar as idéias. Li em algum lugar que é culpa do meu sangue. Parece que indivíduos de sangue tipo B+ precisam de alguma atividade física para relaxar de verdade. Só dormir não funciona. Ficar quieto aumenta a ansiedade e pode até ser motivo de irritação. Não sei se essa teoria louca funciona com todos os meus co-sanguíneos, mas para mim é a perfeita verdade. Sempre gostei de andar para colocar os pensamentos em ordem. Nos meus saudosos tempos de trekking, eu voltava para casa com o corpo esgotado e a cabeça bem mais leve. Em BH, minhas escapadas aconteciam pelo Jaraguá ou pela Lagoa da Pampulha, algumas vezes de bicicleta e outras a pé... Dava uma volta completa na lagoa, depois parava no Mirante do Biguá e ficava olhando o espelho das águas, a Casa de Baile, o Iate Clube, as capivaras nadando... Minha primeira tentativa de escrever um romance foi quase toda concebida à orla da Pampulha. Talvez tenha sido por isso que meus personagens saíram tão belorizontinos, forjei lhes a alma fictícia com o sol escaldante no céu azul sem nuvens da capital mineira, apaziguante os entraves com o vento de montanha no rosto e as linhas de Niemeyer brincando na imaginação. Exceto pelo Museu do Olho no Centro Cívico, há pouco de Niemeyer a ser encontrado aqui em Curitiba. Aliás, as paisagens são outras. Meus itinerários de caminhada são diferentes, em vez do art-decor e do art-nouveau a que eu estou acostumado, as construções são no estilo germânico ou polonês. Telhados pontudos, casinhas de madeira, hortências nos jardins. De vez em quando incluo no roteiro passar pelo bairro São Francisco, um bairro histórico que me lembra muito BH, com pequenas ladeiras e casas antigas. Me dá a impressão de estar caminhando perto da Igreja do Ozanan (no Ipiranga) em Belo Horizonte. É uma sensação gostosa! Quando estou disposto a andar um pouco mais, sigo a ciclovia até o Parque São Lourenço, para caminhar em volta do pequeno lago ou ver a piazada descer de carrinho de rolimã. Ou sigo até o Bosque Alemão e refaço a trilha de Joãozinho e Maria pela enésima vez, relendo os murais calmamente. Ontem não era um dia em que eu estava disposto a andar muito. E, mesmo se fosse, eu não dispunha de tempo suficiente para fazer o percurso todo. Resolvi caminhar porque estava cansado do trabalho e o fim de tarde estava tão agradável e convidativo que não pude resistir... Deixei minhas pernas me levarem. Não podia ir muito longe porque tinha um compromisso na rua Dr. Pedrosa. Caminhei por lugares pelos quais eu costumava passar mais quando era turista em Curitiba: subi a Comendador Araújo, passei pelo Shopping Cristal, voltei pela Batel, comi uma torta numa Confeitaria Holandesa que eu costumava visitar sempre que vinha a Curitiba... Foi bacana perambular por esses lugares, estavam cheios de lembranças de uma outra vida quase esquecida. Caminhava com a mente dividida entre o agora e o que já foi, olhando feito um sonâmbulo os prédios, as flores, as vitrines, as pessoas. Até que encontrei conhecidos que te tiraram um pouco do meu estado subjetivo... Acho engraçado quando encontro pessoas conhecidas aqui. Em BH é normal. Aonde quer que eu vá eu acho alguém conhecido: shopping, igreja, forró e até no meio da Savassi ou no Centro. O Claudinho até costumava me zoar dizendo que eu deveria seguir carreira política. Em Curitiba ainda não é assim, mas já não sou um completo anônimo. Já há sorrisos e abraços inesperados que me reconhecem em alguns lugares por onde passo. É bom ser assim. Significa que aos poucos estou conquistando meu espaço aqui, me adaptando e sentindo mais em casa. Já sei dar orientações a pessoas perdidas e dicas gastronômicas. Conheço os trechos a serem evitados em certas horas da noite. Sei de boas opções de lugares para comer, dançar, namorar. Onde se compra barato e onde se paga caro. Não conheço Curitiba ainda com a mesma familiaridade com que conheço BH, mas progredi bastante... Só não quero e nem vou me transformar em curitibano, meu coração é orgulhosamente mineiro demais para isso. Meu paladar, gosto, hospitalidade, meu suingue e jeito de ver o mundo e as pessoas ainda conservam o sotaque e os valores que não quero perder.

Depois de andar, compareci ao compromisso que tinha e voltei para casa já quase meia noite. Atravessei a Praça Ozório com suas árvores altas e sombrias. Passei pela Boca Maldita e vi o calçadão da XV estendido à minha frente com suas fileiras de postes pálidos. Lembro de quando as luzes eram avermelhadas, eram muito mais belas. A noite parecia um velho filme romântico. Agora tudo me parece frio demais, muito “escritório de orgão público”. A troca da tonalidade das lâmpadas fez a Rua das Flores perder uma parte significativa do seu charme. Até o céu é um pouco menos alaranjado do que era antigamente, pois há poucas luzes avermelhadas para serem difundidas na neblina baixa. Passei pelo Palácio Avenida e vi que os preparativos para o Natal já começaram. Em 2005 passei o ano inteiro com um calendário na carteira onde se via uma foto do Palácio Avenida enfeitado com as luzes de Natal. Este ano verei pessoalmente como ele ficará. Vou poder tirar fotos, colecionar lembranças e contar depois para quem não viu. Por outro lado, estou morrendo de curiosidade para saber como a Praça da Liberdade em BH ficará iluminada. Será que as fontes ganharão luzes novamente? Será que as palmeiras imperiais terão enormes bolas luminosas pendendo? Como será? E no fim do ano? Será que terá show na Lagoa da Pampulha com o César Menotti e Fabiano e Skank de novo? Não sei... Sei que é gostoso viver esta experiência. Transitar entre dois mundos e aprender a amar o melhor de cada mim.

Fico por aqui... Tinha feito um pacto comigo mesmo que passaria um tempo sentindo e pensando mais as coisas do que escrevendo e já cumpri o que havia estabelecido. Acho que agora voltarei a ser mais freqüente em minhas postagens.

Saudades de todos e continuem orando por mim. Deus tem cuidado de mim e continua no controle, mas orações nunca são demais...

Abração,

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