
"Para que tanta TV, tanto tempo pra perder
Qualquer coisa que se queira, saber querer"
- Samuel Rosa e Chico Amaral -
(trecho da música "Pacato Cidadão", da banda mineira Skank)
Tenho gasto pouco tempo com televisão. Sei que a TV paga é uma ilusão... Quantos fins de semana eu já passei com o controle na mão mudando de canal sem achar nada que prestasse nos "trocentos" canais assinados? Ás vezes salvava um filme, um seriado, um desenho. Outras eu acabava assistindo novamente um dos meus próprios DVDs. Mas a TV gratuita me desespera ainda mais que a paga porque as opções são mesmo limitadíssimas, principalmente opções saudáveis. Sobram programas de auditório e novelas sem nada de bom a acrescentar e falta uma programação que mude alguma coisa ou, pelo menos, levante questionamentos produtivos. No segmento de programas religiosos não é diferente. Chama a atenção a quantidade de pastores com seus programas no ar. Grandes quantias de dinheiro são gastas (e ganhas) através deste veículo de comunicação. As igrejas que mais crescem (pelo menos financeira ou numericamente) têm seus próprios horários na telinha, algumas várias vezes por semana. É algo que deveria, no mínimo, levantar alguns questionamentos: Qual o verdadeiro objetivo de cada programa destes? Será que Cristo é pregado de maneira clara e eficaz através deles? Será que todo o investimento e trabalho por trás é visando realmente fazer bem a quem assiste e levar pessoas a uma comunhão melhor com Deus e ao conhecimento pleno de Cristo? Esses programas têm sido planejados e exibidos para a glória de Deus ou para o engrandecimento de egos de homens religiosos? Historicamente a obra de Deus eficaz sempre foi levada adiante no "corpo-a-corpo" missionário. Pessoas simples, leigas, vivendo em comunhão com Deus em seu dia a dia e levando a mensagem do evangelho como um testemunho vivo. Dentre os discípulos e apóstolos também vemos isso. Paulo e Lucas, os mais instruídos, eram as exceções. A maior parte dos primeiros seguidores de Jesus vinha das camadas menos favorecidas da sociedade. Eram pescadores, coletores de impostos, putas e párias de todo tipo. Usaram todas as ferramentas que dispunham na época para levar a mensagem. Felipe pregou para o etíope enquanto caminhava. Pedro e Tiago usaram seu prestígio judaico nas sinagogas e em grupos de judeus. Paulo escrevia cartas doutrinárias interpretando a Antigo Testamento à luz da vinda de Cristo e do Espírito Santo. Mas há algo que era regra de ouro entre eles: Todos apontavam para Cristo. Mesmo que houvesse algumas diferenças a serem discutidas e tratadas, a principal intenção era que o evangelho de Cristo de tornasse conhecido e Deus recebesse toda a glória devida a Ele. O que presenciamos hoje pela TV é algo bem diferente. Há um desfile de egos inchados que se auto-intitulam “apóstolos e bispos”, numa tentativa ensaiada de convencer que são mais ungidos ou abençoados que os demais. Ninguém mais quer ser chamado de pastor ou sequer de irmão. Apresentam-se com uma hierarquia cada vez maior tentando obter reconhecimento de que contam com alguma simpatia peculiar do Alto. Não me admira se logo aparecer alguém clamando o título de “vice-deus”. As igrejas por trás dos programas mostram sinais desta megalomania até em seus nomes, são sempre “internacionais”, “mundiais”, “universais”, com algum líder que conta com o favor especial de Deus para operar qualquer tipo de milagre, sempre pregando na mesma entonação de voz e usando o mesmo jargão. É um tanto perigoso ouvir esses tais e não passar nenhum filtro pelo que dizem. Temos de criar o hábito de por à prova todas as coisas, mas reter somente o que é bom. (I Ts 5:21). Pensando nisso, vamos refletir um pouco sobre esses programas, seus conteúdos e apresentadores. Quando o assunto entra em voga, os ânimos geralmente se alteram. Esses cristãos televisivos não sabem discutir idéias. Preferem taxar os que pensam diferente ou não concordam com seus métodos e mensagens como “hereges” e carentes de um relacionamento verdadeiro com Deus. Ou então, sem perceberem que estão se divinizando com essa atitude, acabam acusando os outros de irem contra o próprio Deus, como se o Todo Poderoso precisasse de defesa humana.
Tenho de deixar claro, em primeiro lugar, que não sou contra programas de TV de cunho religioso. A transmissão de cultos online, por exemplo, é uma ótima ferramenta de ensino e evangelização em países onde a perseguição ao cristianismo é intensa ou em situações onde alguém não pode comparecer ao templo, mas deseja ardentemente participar do serviço. Além do mais, acredito também que os valores cristãos devem ser estimulados e ensinados por qualquer meio disponível e que o evangelho (as boas novas a respeito da nova vida em Cristo) deve ser pregado "a tempo e fora de tempo". A questão é que na maioria dos programas que encontramos hoje, o que é pregado é um evangelho estranho e místico, cheio de rituais, palavras de poder, sinais e prodígios, porém fraco de embasamento bíblico. O Deus que se revelou plenamente na história através de Jesus Cristo é apresentado envolto em mistérios e supertições. Teologias fracas e há muito refutadas e desmascaradas como enganosas, são anunciadas como se fossem as últimas revelações do Altíssimo e servem de pano de fundo doutrinário para justificar extravagâncias que muitas vezes até vão contra a Palavra de Deus. Para citar algumas delas, lembremos das frases de efeito da Teologia da Confissão Positiva, concedendo aos homens a ilusão de poderem comandar Deus através de comportamentos e frases feitas. “Determine! Exija! Ordene!”. Colocando os desejos e a vontade humana acima da Soberania do Eterno. Esquecem-se que um deus que se manipula e controla, um deus que atende a qualquer pedido baseado num sistema de retribuição, um deus “domesticado” – como diria C. S. Lewis - deixa de ser o Deus Onipotente, Onipresente e Onisciente. Deus não é um tipo de gênio da lâmpada, escravo da vontade de homens. Há os que dizem que o porquê disso tudo é Deus estar obrigado a agir se usarmos Sua Palavra a nosso favor. “A nosso favor e contra quem?” Será que Deus deixou a Bíblia para que se tornasse vulnerável? Se a abordagem não estiver na manipulação divina direta, mas no poder implícito das próprias palavras, que diferença terá em crer na Bíblia e crer na feitiçaria? Que diferença há entre dizer “abracadabra” e dizer “Eu determino”? O que o feiticeiro busca é justamente controlar o sobrenatural (e eventualmente o físico) através de palavras e rituais. Será que os adeptos desta teologia não percebem que estão seguindo a mesma linha? A situação, o objetivo e o efeito são os mesmos. O nome disso é magia, não evangelho! Há também a Teologia do Domínio que reza que uma nação precisa de “homens de Deus em posições de autoridade” para ser abençoada, muita utilizada por líderes religiosos com ambições políticas. Se isso fosse verdade, os EUA não teriam seus problemas de racismo, pobreza e consumismo vazio que nenhuma política até hoje foi capaz de suplantar, apesar de vários presidentes terem sido protestantes. Só para ilustrar, basta pensar nas gafes e besteiras feitas por Bill Clinton e George Bush, batistas de carteirinha desde pequenininhos. Houve diferença real? Foram governos 100% abençoados e bem sucedidos? Será que os EUA foram orientados por Deus em sua ofensiva no Iraque? Desconfio que não... A Teologia do Domínio prega que líderes cristãos no poder iriam automaticamente resultar em melhores condições de vida, em paz, prosperidade e produzir sociedades mais justas... Será que é isso o que acontece? Uma breve análise bíblica revela a fragilidade desta crença: o Deus da Bíblia assumiu abertamente a responsabilidade por endurecer o coração do faraó no tempo de Moisés (Ex 4:21), é conhecido em Provérbios 21:1 como um Deus que “inclina o coração do rei conforme lhe apraz” e que se referiu ao rei pagão Ciro como “meu pastor” e “meu ungido” (Is 44:28/ Is 45:1 ). Deus usa quem quer e quando quer. É muita pretensão alguém se achar mais apto ao exercício da vida pública apenas pela fé que professa. Os nomes de Daniel e José do Egito, tão citados pelos defensores desta linha teológica, são dignos de destaque nas Escrituras justamente por ser exceção num sistema corrupto, não a regra. A Teologia da Prosperidade é outra ideologia recorrente, talvez a mais conhecida, transformando Deus num fornecedor sempre eficiente de bens de consumo e criando uma geração de fiéis apaixonados pelo próprio umbigo, exigindo a satisfação de seus desejos enquanto berram que são “filhos do rei”. O mundo espiritual segundo esta crença é uma espécie de Shopping Center no qual a moeda é a fé, um sacrifício, ou até dinheiro mesmo. Desconhecem o sentido da Graça. Se no passado os católicos vendiam terrenos no céu, hoje vemos pregadores negociando curas, libertação de vícios, expulsão de demônios, sucesso no amor ou nos negócios e boa vida. Alguns dizem que ela é uma resposta à Teologia da Libertação, que prega engajamento político e ação prática numa tentativa de criar uma sociedade igualitária e mais justa, o Reino dos Céus na Terra. Também usada por extremistas em benefício próprio para justificar atos de vandalismo e ocupação de propriedades alheias. É preciso ter os olhos abertos. Nem tudo o que reluz é ouro. Um pedaço de isopor pintado de dourado não se transforma em metal precioso por causa da tinta. Um erro disfarçado de verdade, por mais belo ou certo que pareça, continua sendo um erro. Se temos a Bíblia como regra de fé e prática, é preciso que passemos nossas experiências e crenças pelo crivo dela, não o contrário. O que se vê hoje é que se há o aparecimento de alguma novidade no meio evangélico, uma série de “doutores da lei” a acompanha se esforçando para justificar ou explicar biblicamente suas práticas, mesmo que para isso seja necessário torcer versículos e textos inteiros fora de seus contextos e interpretações mais coerentes. Devemos ser como os cristãos de Beréia (Atos 17:11), conferindo nas Escrituras tudo o que nos é ensinado, seja nos púlpitos ou nas telas. Não é porque algo funciona, ou porque soa miraculoso e sobrenatural que deve ser aceito indiscriminadamente como vindo de Deus. O apóstolo Paulo adverte: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. (maldito)” (Gálatas 1:8). Podemos ainda lembrar sobre as advertências de Cristo a respeito de profetas operando maravilhas e aparentando uma vida espiritual de sucesso, mas que nunca O haviam conhecido de verdade (MT 7:21-23).
É preciso prestar atenção também nos homens e instituições por trás dos programas. A principal preocupação destes é trabalhar pelo Reino de Deus na terra ou na promoção de seus próprios líderes, segmentos e doutrinas? A temática e principal razão dos apelos é feita com base na mudança de vida ou com a finalidade de arrecadar mais e mais dinheiro? A mensagem de João Batista era “Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos Céus”(MT 3:2 / MC 1:4 / LC 3:3-8). Cristo, em seu ministério terreno, expulsou demônios, curou enfermos e ensinou a Palavra, mas sua mensagem mais constante foi a de arrependimento (LC 15:7,10,31 / LC 24: 47). Os discípulos e apóstolos seguiram a mesma linha (AT 11:18 / 20:21). A igreja do nosso tempo prefere outra temática. Enquanto as instituições e os homens tirarem o foco do que devia ser o principal para obterem lucro, poder e prestígio, o Reino de Deus acaba ficando esquecido. O dinheiro é algo bom, mas o amor ao dinheiro é ruim. Ele deve ser um meio, não um fim. Se não for encarado somente como uma ferramenta, acaba se tornando um ídolo. Como é utilizado o dinheiro arrecadado? Missões? Ação social? Há a preocupação de se fazer diferença não só espiritualmente, mas também socialmente? Obras não salvam ninguém, mas a Bíblia diz que a fé sem obras é morta. (Tiago 2:14-18). Tiago diz: “A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tiago 1:27). A verdadeira obra de Deus transcende a construção de mega templos faraônicos. Mais do que dar boa vida a ministros e seus assessores deve levar arrependimento e mudança de postura para que mais pessoas possam experimentar a Vida Abundante em Cristo. Mas infelizmente, o que vemos é uma turba de ministros que se julgam muito bem sucedidos enquanto celebram e ensinam seus fieis a dançarem freneticamente em volta do bezerro de ouro.
Há quem defenda com unhas e dentes que a grande vantagem de programas de rádio e televisão é o alcance. É comum ver apresentadores e mantenedores deste tipo de empreendimento se gabarem de cifras como “100 mil ouvintes” ou “mais de um milhão de telespectadores em todo o Brasil”. O problema é que os números não são tão convincentes assim. Os programas de rádio e televisão costumam passar uma falsa impressão de alcance. Mesmo se as estatísticas puderem ser confiáveis, é fato de que “programa de crente é ouvido por crente”, em sua maioria. De que adianta criar um programa evangelístico que só é ouvido por quem já ouve a Palavra pelo menos uma vez por semana? Pescar no próprio aquário é desperdício de recursos, deveríamos visar as águas profundas do mar imenso que é o mundo. Talvez o dinheiro fosse melhor empregado se usado na capacitação, envio e sustento de missionários. Conversando com um pastor amigo e professor de seminário, ele me disse que uma vez fez as contas e com o dinheiro gasto com determinado programa de grande audiência na época, dava para sustentar pelo menos 5000 missionários no campo. O problema é que o trabalho missionário não dá IBOPE. Os heróis da fé serão reconhecidos na eternidade. Ou então virarão biografias desafiadoras depois de mortos. Poucos são os que querem trabalhar sem ver, nesta vida, os louros da fama. É mais gostoso ser um rosto em close na telinha, todo maquiado e no melhor terno, do que comer iguarias estranhas ou desempenhar tarefas triviais para se inserir numa outra cultura. O cristão anônimo, o servo que faz seu trabalho a Deus fora dos holofotes, é depreciado pela cultura evangélica contemporânea. Algumas igrejas gastam fortunas para manter no ar cultos semanais e até diários, e apenas uma parte ínfima da entrada é revertida em missões. E pior, ainda formam uma geração inteira de acomodados que passa a acreditar que o “IDE” de Jesus pode ser substituído por outros verbos e expressões, como “Pague para alguém ir”, “ore por alguém que foi”, “Mantenha nosso programa no ar e o divulgue”. Gente que nunca teve coragem de falar de Jesus faz propaganda com orgulho do culto na TV e se sente como se tivesse cumprindo sua missão como evangelista. “IDE” é imperativo de ir! Pouca importa se é para a África, a Europa, uma tribo na Amazônia ou no apartamento da vizinha. “IDE” é para todos os crentes, em qualquer lugar... no elevador, no ônibus, no trabalho, no mercado, no barzinho. Há ainda a possibilidade dos programas não visarem evangelismo, mas “crescimento na vida cristã”. Se este for o caso, que as mensagens sejam mesmo nesse sentido, que falem sobre coisas que levem os crentes a pensarem na relevância de sua vida espiritual e em como podem ser mais produtivos para o Reino de Deus. Não leva a lugar algum difamar o pastor da igreja “concorrente” (ou de outra denominação) em horário nobre... Ou alimentar discussões teológicas intermináveis e sem sentido. Ou colocar no ar jogador de futebol ou ex-ator global falando besteira com cara de entendedor... Que os programas sejam realmente edificantes e não apenas mais uma opção de entretenimento compatível com as crenças do público evangélico emergente.
Conhecer a verdade liberta, mas a busca da verdade é uma jornada individual. É uma responsabilidade de cada um diante de Deus. Não sejamos manipulados. Dentre todos os dons que Deus nos deu, uns supervalorizam as línguas, outros as curas, sinais e todo o sobrenatural, mas um dom sublime tem sido negligenciado: a inteligência. Crer é também pensar.
Comecei o texto com um trecho de uma música secular. Sei que isso causará arrepios em alguns leitores. Só quero que reflitam... O mundo está clamando. Até quando nos desviaremos do verdadeiro IDE para ficar falando besteiras, discutindo posições doutrinárias, ou promovendo homens e instituições que passarão em vez do Evangelho Eterno e Incorruptível? Se não pregarmos, as pedras pregarão... Se um dia precisar chegar a este extremo, tomara que elas não tenham o mesmo gosto por ouro e poder que nós humanos cultivamos...
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Nota importante: Não sou contra os programas de televisão religiosos, o objetivo do texto é gerar reflexão sobre a relevância, intenções e eficácia dos mesmos. Que possamos assisti-los (ou não) tendo em vista o que Paulo diz em Filipenses 4:8 "Por último, meus irmãos, encham a mente de vocês com tudo o que é bom e merece elogios, isto é, tudo o que é verdadeiro, digno, correto, puro, agradável e decente.”
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