Tenho andado meio reflexivo nestes últimos dias. Mais comedido nas palavras, profundo em pensamentos, introspectivo. Nomes, datas, atitudes, intenções minhas e de terceiros, meias-verdades, mentiras inteiras... tudo está suspenso dentro de mim, movimentando-se vertiginosamente, descrevendo espirais de velocidade inconstante num redemoinho de emoções e idéias. Penso em pessoas que já foram parte significativa da minha vida e hoje são apenas sombras, penso nas que ainda estão comigo e nas que vão se acrescentando ao meu mundo. Lembro dos lugares que passei, dos que queria ter ido e de onde estou. Acho que já disse isso antes, no fim das contas, somos mais as coisas que perdemos do que as que conquistamos. O que sai de nossa vida deixa um espaço único, uma cicatriz, uma marca de batom ou a impressão digital no espelho da alma. É aquela velha história da música do Milton Nascimento:"Há um passado no meu presente, um sol bem quente no meu quintal". Esse sol às vezes está numa lembrança da casa da minha avó, o corpo mole e a barriga cheia, pés descalços sentindo a terra vermelha fria debaixo do pé de manga que já existe mais... Outras vezes aparece nas tardes matando aula no Carlos Lacerda, eu de unifome branco com mangas azuis, brasão do colégio no peito, o velho quichute no pé, atrás da biblioteca ou no bambuzal perto das quadras, cenário de beijos, desejos, vadiagem e a inocência de quem ainda sabe bem pouco do mundo, mas desconfia que tudo pode... Ou então, está nas vinhadas e festas na UFMG, quando eu ainda era aspirante a universitário: jogando Spellfire, bebendo vinho barato, aprendendo a tragar cigarro e cobiçando as meninas que passavam pensando em qual chegaria... A vida é feita de muitos sóis escaldantes. É engraçado como alguns deles vão perdendo o calor com o tempo. Segredos deixam de ser tão significativos, são bobos e irrelevantes, como diz a música do Oswaldo. Os Tempos mudam, graças a Deus!
Ando por Curitiba e vejo um monte de adolescentes como eu já fui.. Cabeça cheia de sonhos e peito cheio de amores, um para cada estação ou até para cada muda de roupa. Sentindo cada sensação como se tivesse a urgência do juízo final. Cabelos coloridos, piercings, roupas iguais (ou completamente diferentes)... tudo para tentar achar a própria identidade. Cada um copiando o outro e se esforçando ao máximo para ser "sui generis". Já fui assim. Já fumei porque meus amigos fumavam. Já bebi para não ser o único caretão sóbrio. Já quis me vestir como meus ídolos e heróis. Li o que todo mundo lia, escutei o que todo mundo escutava. Faz parte. A adolescência é a fase iniciática na qual vemos o mundo adulto sem decifrá-lo ainda por completo, mas julgando-nos preparados para ter nosso lugar nele. Com o tempo, a despeito de alguns corações quebrados e fotos e histórias constrangedoras, acabamos nos situando no mundo, apesar do processo nos deixar um pouco cétidos e certa dose de sarcasmo... O caminho pisado mostra que trilhamos percursos inteiros de engano ás vezes. As tais estradas largas da perdição. Os atalhos rápidos que revelam-se mais dolorosos e longos. Ainda bem que Deus é misericordioso e usa até esses "desvios" para nos transformar em algo de bom.
Não sei o que tem me deizado assim. Deve ser a tal "Crise dos 30" de que todos falam. Começo a entender porque os judeus só ordenam sacerdotes depois desta idade. Talvez seja porque a concepção da gente vai se transformando ao entrar nesta fase. Já se sabe muito da delícia e o martírio de quem se é. Pés cravados no chão, cabeça avaliando os sonhos, hormônios sob controle a maior parte do tempo. Estou mesmo envelhecendo, mas é tão bom! É agradável olhar no espelho sem se importar tanto com a opinião alheia. Usar as roupas e calçados que gosto. Comer e beber (ou não comer e não beber)por opção e não para agradar um grupo. Dizer o que penso. Confessar-me perdido às vezes e rir disso...mesmo quando é um riso meio desesperado. É bom chegar em casa e me entreter comigo mesmo, ou saber o valor de uma companhia pelo que a companhia representa e não simplesmente para não estar só. No meio de tudo isso, estou aprendendo a gostar muito mais do sujeito que me encara do outro lado do espelho todas as manhãs...
18 novembro 2009
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