22 agosto 2009

A Falta dos Bem-te-vis Fofoqueiros de Minas...

"É perigoso sair porta afora, Frodo. Você pisa na estrada, e, se não controlar seus pés, não há como saber até onde você pode ser levado."
- Bilbo Baggins, para Frodo, in "O Senhor dos Anéis", J.R. Tolkien -

Já faz 8 meses que estou em Curitiba. Já me acostumei com o frio da cidade, mas ainda estranho a frieza do povo. Acho engraçado dar "Bom dia" e "Boa noite" nos lugares e ouvir alguém perguntando: "Você não é daqui, né?". Já até ouvi uma piadinha infame falando que os curitibanos adoraram a gripe suína, pois agora têm uma desculpa para não cumprimentar as pessoas. Que maldade! Curitiba tem melhorado. Acho que é porque a última pesquisa mostrou que 54% da população já é de "não-curitibanos": catarinas, mineiros, gaúchos e outros (rs). Aqui na República mesmo é prova disso: um mineiro, um catarina, um gaúcho, um tocantinense e um paraense. Diversidade cultural e linguística. Quando está todo mundo junto é sotaque que não acaba mais. Dá pra aprender muita coisa, mas algumas coisas da terrinha me fazem uma falta danada. Sinto saudades, por exemplo, do sol na janela pela manhã. Aqui tem cinza, neblina e nuvem demais. Tem vezes que passo a semana inteira sem ver a cor do céu. Lembro de como era acordar em Bh. 6:00 da matina e aquele sol lindo entrando pela fresta da janela, o céu azuzinho (ou "azuzim", como se fala em bom "mineirês") e os passarinhos fazendo algazarra nas árvores. Aqui eu durmo ouvindo carros a noite inteira e os pássaros não cantam ao amanhecer perto da minha janela. A caminho do trabalho, sempre cruzo com um ou outro joão de barro disputando alguma migalha com os pombos que infestam a Praça Santos Andrade. Outro dia vi um Bem-te-vi solitário pousado numa árvore, mas ele nem cantava. Acho que até os bem-te-vis daqui são mais reservados. Lembrei de como era sair para trabalhar em Bh, com os bem-te-vis mineiros dando notícia do pico de alguma mangueira ou abacateiro próximo, no maior alarde: Bem te vi! Bem te vi! Bem te vi! E eu pensava baixinho: "Viu nada! Não sabe da missa a metade" e ia para o ponto de ônibus ter uma conversa animada com algum desconhecido. Em Curitiba as pessoas não são de prosear em ônibus como os mineiros. Preferem um silêncio emburrado ou indiferente. Fones de ouvido. Sono fingido. Máscaras de hospital em tempos de H1N1. Tomara que eu estranhe por muito mais tempo ainda, quando eu começar a achar normal ser assim tão frio, talvez seja hora de arrumar as malas e voltar para a hospitalidade mineira.

Bom... Novidades: Estou de mudança. A dona do apartamento está querendo aumentar o aluguel bem além do que o imóvel vale e resolvemos buscar outro lugar. Já até temos um em vista. Se tudo correr bem, será bem melhor: prédio novo, apartamento mais espaçoso, sol batendo a tarde inteira, rua mais silenciosa, banheiro azulejado até o teto. Tem até uma varandinha com lugar de colocar rede! O sangue baiano que herdei do meu pai até pulou igual folião em bloco de carnaval quando eu soube desse detalhe. Estou empolgado com a mudança. Cheio de planos, pensando no novo quarto. Foi providencial. Chegou numa hora em que estava mesmo precisando ocupar a cabeça e o coração com outros assuntos e idéias. Deus continua cuidando de mim. Desde o dia em que cheguei aqui até hoje, Ele tem cuidado de cada detalhe. Estou pensando até em incluir algo mais na minha oração: pássaros ao amanhecer. Quem sabe Deus não me leve para um lugar onde haja algum bem-te-vi mineiro para espionar zombeteiro as minhas manhãs? Eu não iria reclamar...

Para os que ainda estão preocupados comigo, fiquem tranquilos. Meu coração está em paz. Não há o que fazer, nem o que falar, isso basta. Meu Deus continua no controle e Ele sabe o que é melhor para mim.

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