
Não consigo me lembrar se a fábula foi contada por Esopo, La Fontaine ou se li em Monteiro Lobato e, sinceramente, posso não me recordar mais de alguns detalhes. Perderam-se no tempo e na memória... Como não me lembro a lista exata dos animais, não vou enumerá-los todos nominalmente. As fábulas têm todas um fundo moral, logo basta recordar-lhes a lição implícita. Conta que um macaco estava assentado observando os outros animais, avistou um elefante a começou a criticá-lo: um animal daquele porte e com um rabo tão pequeno era, no mínimo, cômico. Outros animais apareceram e o macaco prosseguiu com suas críticas: o rabo de um era muito curto, o de outro grande demais; o deste era desproporcional e atrapalhava a postura, o daquele era ou felpudo ou espinhento demais. Quando os animais vão embora - ou não sei se alguém descobre isso - o macaco se levanta. Ele estava assentado em cima da cauda. O seu rabo é maior e mais feio do que o de qualquer um dos demais: o pelo todo desgrenhado e espinhento, obrigando-o a andar todo torto, sem elegância alguma.
Senti a necessidade de contar o que restou dessa fábula em minha memória porque me assusta o crescente número desses primatas que pode ser encontrado dentro de nossas igrejas. Geralmente aparentam certa respeitabilidade, ar de superioridade, vestem uma capa de santidade e escondem seus próprios pecados cabeludos enquanto apontam os dos demais. Vele lembrá-los que "Quem esconde seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona alcança misericórdia." (Pv 28:13). Nada dá certo para esses macacos enquanto posam de santos e escondem seus rabos. Pecado tem de ser confessado para ser perdoado, não escondido. Macacos têm horror de confessar seus pecados, para eles isso significa perder a pose e o prestígio. Significa ter de admitir que são iguais ou piores do que o resto do mundo e esses primatas fazem parte de um sistema em que o importante é ser "diferente", "separado". As aparências são extremamente valorizadas. Mais do que ser um discípulo genuíno de Jesus, muito mais do que gozar da presença Real de Deus, eles supervalorizam o "parecer". Criam listas intermináveis de "pode" e "não pode", para ganharem uma capa de perfeição por cumprirem à risca seu legalismo. Transformam a Graça incondicional de Deus num mero detalhe religioso. Na época de Jesus, os macacos eram os fariseus, tão zelosos e perfeccionistas, verdadeiros santos exteriormente... mas eles não contavam com o olhar de Jesus que os enxergava através que seus disfarces. Quando Cristo viu o que eles realmente eram, os chamou de "sepulcros caiados". Tinham uma fachada bonita, mas o interior era cheio de podridão.
Outra dificuldade dos macacos é o não entendimento do perdão através de Jesus. Foram várias as ocasiões em que questionaram a autoridade de Cristo em perdoar pecados. Isso talvez seja porque eles entendem que pecadores devem ser expostos e punidos, não perdoados e admitidos à presença de Deus. A parábola do fariseu e do publicano serve bem para ilustrar como se sentem com relação à pecadores. Lê-se em Lucas 18:9-14 que o fariseu se alegrava por não ser como o publicano, mas deve-se atentar à observação de Jesus sobre qual dos dois voltou para casa justificado diante de Deus... Num outro acontecimento, os fariseus levaram até a presença do Mestre uma mulher adúltera na expectativa de participarem de um apedrejamento. Sequer cogitaram o perdão, queriam a condenação imediata. Queriam a pena capital! Esses macacos são sempre extremistas e automáticos quando se trata de sentenças de morte. Expõem as falhas alheias até talvez com mais devoção do que ocultam as suas próprias. É o velho ditado "Pimenta nos olhos dos outros é refresco.", mas essas palavras jamais sairiam dos lábios de Jesus. Jesus é de opinião diferente da dos fariseus, Ele diz "Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: 'Deixe-me tirar cisco do seu olho', quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão" (Mt 7:3-5) A palavra "hipócrita" nos remete originalmente às peças teatrais gregas. Hipócrita é aquele que usa uma máscara para representar algo que não é. É um ator! No caso da mulher adúltera, Jesus sequer ergueu os olhos, Ele estava desenhando na areia e continuou assim. Ele sabia que estava diante de uma encenação e que aqueles atores eram cruéis, estavam ávidos por sangue e glória. Dispostos a matar sonhos, alegrias, ideais... pessoas... tudo em nome de uma santidade falsa. A macacada julgava o seu pequeno show uma coisa muito mais importante, julgavam-se superiores, uma "elite consagrada". Desconheciam a natureza da verdadeira grandeza espiritual valorizada por Jesus: "O maior entre vocês deverá ser servo, pois todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado" (Mt 23:11,12). O próprio Jesus é um exemplo desta grandeza espiritual, pois "embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se, mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome(...)" (Fil 2:6-9). a mensagem do evangelho era um paradoxo difícil de assimilar para os primatas da época de Cristo: ser servo para ser importante... fraco, para ser forte... perder a vida para encontrá-la? O que lhes importava era como manter sua posição de destaque, seu "status quo" inalcançável de santidade, mesmo que para isso tivessem de destruir aqueles que não satisfizessem suas condições de perfeccionismo religioso
Jesus não lhes deu o que queriam. Cristo não veio ao mundo para executar penas capitais, nem muito menos para satisfazer o apetite impiedoso dos hipócritas religiosos. Seu papel é de Salvador, não de algoz. A história da mulher adúltera termina com Jesus convocando os fariseus a tirarem suas máscaras, a saírem de cima dos próprios rabos: "Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra!" A macacada foi embora sorrateiramente, um a um, rabos escondidos entre as pernas. Quando o último saiu dali, só então Jesus ergueu os olhos e perguntou à mulher; "Cadê a macacada que te acusava? Ninguém te condenou?" A mulher respondeu: "Ninguém , Senhor." e Jesus finalizou: "Eu também não te condeno. vai em paz e não peques mais." A expectativa de morte substituída por vida. A execução programada transformando-se numa oportunidade do perdão de Deus alcançar um pecador.
Vale refletir sobre nossa postura na igreja: Temos sido cristãos ("pequenos cristos") ou apenas mais um primata religioso? Se nosso irmão erra, ou demonstra fraqueza em sua fé, nós o condenamos, punimos, expomos seus pecados, ou tentamos trazê-lo de volta à comunhão com o Pai,como alguém que merece ser tratado com amor e atenção? Em Tiago 5:19 e 20 lemos: "Meus irmãos, se algum de vocês se desviar da verdade e alguém o trouxer de volta, lembrem-se disso: Quem converte um pecador do erro do seu caminho, salvará a vida dessa pessoa e fará que muitíssimos pecados sejam perdoados".
Sejamos mais parecidos com Cristo e menos com a macacada. Uma alma vale mais do que o mundo inteiro, muito mais do que uma posição de destaque ou elevada, mais do que uma máscara de santidade, mais do que o reconhecimento dos homens. Vamos pedir sabedoria à Deus para ganharmos almas. Vamos ser conhecidos por nosso amor incondicional como o amor de Deus! É isso ou ficar berrando e fazendo caretas com o indicador erguido. Cabe a cada um fazer sua escolha. Eu, pessoalmente, não tenho vocação nem paciência com macacos...

2 comentários:
nusga.... muito grande...
sou pessima leitora...
nao li nao rsrsrsrsrs
beijo beijo
pois é lu...
eu funciono a prestações...
coisa grande assim tem que dividir de 3x... se não não consigo sentar pra leeeer.
Aquele conto la, que certas pessoas prometeram terminar se fosse digitado, eu li aos pouquinhos.
Beijos beijos
saudades
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